Em cenário local pré-crise, Occam destina 50% dos investimentos ao mercado americano

Fundada em 2018, a Occam Brasil fechou 2024 com R$ 10 bilhões sob gestão e planos de dobrar o AUM da casa. A confiança na entrega de retorno dos produtos, que incluem fundos multimercado, de ações e de crédito privado, é sustentada na capacidade de originação interna, na consistência dos retornos dos produtos e em uma gestão adequada do risco. “O importante é você estar batendo o benchmark e estar sempre entre os 25% do primeiro quartil”, comenta o CEO e sócio fundador da Occam, Carlos Eduardo Rocha (Duda Rocha) se referindo ao retorno consistente dos produtos da casa.
Também é importante no cenário para crescimento da operação, o acordo com a BB Asset, do Banco do Brasil (BB), feita há dois anos na área de credito privado e que deve evoluir para uma sociedade. “O BB é um investidor da parte de crédito, aproveita da nossa diversidade, do diferencial, e ao fim do dia o banco tem direito a uma parte do lucro da empresa. A nossa parte de crédito, já no primeiro ano, foi lucrativa. Agora, a proposta é converter em uma sociedade”, comenta Duda Rocha, sem dar detalhes por um acordo de confidencialidade. Em entrevista à Capital Aberto, Duda Rocha falou sobre o cenário para os investimentos em 2025, disse ver um macro local em pré-crise – ponderando que não é possível definir como esta crise chega ou por qual vertente – e um mercado americano muito atrativo. Hoje, a Occam destina mais de 50% dos investimentos aos Estados Unidos, principalmente bolsa.
Acompanhem:

Qual cenário vocês, na Occam, enxergam para o ano de 2025? O que vem pela frente e qual o impacto na perspectiva de investimentos?
Vou começar pelo cenário global, que é positivo para investimento. Você tem a aliança de um tema macro com algumas economias reduzindo os juros, melhorando o custo de oportunidade. O mundo, no geral, deve reduzir os juros e isso é favorável, mas isto tem que ser aliado com a perspectiva de crescimento. A gente acha que essa dinâmica de crescimento não é favorável na China e na Ásia, em geral. Serão crescimentos menores do que houve nos anos anteriores. Na Europa também é uma derivada menor, menos atrativa. O mesmo para os mercados emergentes, que inclui o Brasil. Agora nos Estados Unidos, você tem uma dinâmica diferente de crescimento, muito boa e próxima do ano anterior. O macro é favorável.

E como este cenário macro, desenhado, se comunica com os investimentos?
Globalmente, você tem uma aposta dos juros favoráveis, uma aposta no câmbio, com as moedas das economias mais fortes se valorizando. E, de novo, o dólar americano muito forte. Os Estados Unidos deveria ser onde o dinheiro está investido. Além disso, há uma mudança de governo que, tirando toda a parte ideológica ou o ruído que se tem em torno do Donald Trump, é de uma agenda pró-mercado. É uma agenda que prevê redução de impostos e favorece as empresas. Este é o macro dos investimentos. Olhando para o micro, o mercado americano também se destaca com o tema de tecnologia muito forte. Na Occam alocamos no que dá para controlar e evitamos o que não é controlável. Neste momento, a China é mais complicada, enquanto os Estados Unidos tem empresas alfa, empresas líderes, referências globais. Somando tudo isto o cenário favorece investimentos nos Estados Unidos.

Mesmo que as políticas de Trump piorem o tema fiscal, ainda assim há oportunidade de alocação?
A gente acha que os juros longos devem se manter um pouco mais altos, mas já há algumas oportunidades de aplicar os juros curtos nos Estados Unidos. Acreditamos que o dólar deva se favorecer contra economias com menor crescimento ou com menos dinâmica de crescimento. Tem uma aposta, mais favorável, nos juros nos Estados Unidos, um pouco mais desfavorável em alguns países da Europa e em mercados emergentes, incluindo o Brasil.

E qual sua visão para o macro brasileiro, com o fiscal pressionando e a perspectiva de juros ainda mais altos?
Temos essa fragilidade no câmbio e nos juros no Brasil. Na nossa opinião, no que se refere ao tema fiscal, o governo tem feito esforços para aumentar as receitas, mas esse não deveria ser o ponto. A gente está tentando sugerir fortemente ao governo que se ele fizesse uma redução de gastos, geraria uma surpresa positiva, porque as expectativas são tão baixas, que o que ele ganharia nos juros, no câmbio e na confiança do setor privado, que é mais de 80% de investimento, geraria uma espiral positiva que compensaria o efeito que é sempre impopular, de cortar gastos. Acho que o ganho de popularidade seria maior. Hoje, a probabilidade não é que isso aconteça. O governo escolheu um caminho de tentar fazer uma expansão fiscal ou um arcabouço fiscal que nos preocupa. A gente está se aproximando de uma crise. O arcabouço fiscal prevê um crescimento real dos gastos mesmo que as receitas caiam e nos preocupa. Se isso acontecer, em um momento em que você precisaria reverter uma expectativa negativa, de uma crise, vai aumentar. Não é o que aconteceu em 2024 porque as receitas do Brasil cresceram bem. Acabou compensando. Agora, você nunca sabe quando vem uma crise e quando ela chegar à dívida, que já está crescendo, vai crescer mais forte ainda porque a receita vai cair.

Quando você fala de crise, você está se referindo a esse menor crescimento do PIB que pode piorar a situação até fiscal do Brasil? A que crise você se refere?
Quando falo de uma crise, eu acho que, no limite, há uma recessão. Mas há algumas outras crises menores. Pode ter uma crise de crédito, porque os spreads são um pouco menores. Pode ter, em algum momento do tempo, uma crise política, muita confrontação entre Judiciário, Legislativo e Executivo. Não se sabe prever exatamente qual é essa crise. O que a gente está, infelizmente, é em um cenário de deterioração macro. A nossa dívida aumentando, o câmbio pior vai alimentar uma inflação, principalmente para os mais pobres. A projeção do mercado para a inflação está em torno de 7% de inflação já para 2025, só que provavelmente acima de 10% para os mais pobres. Isso sempre gera uma tensão política. Estou te falando de um ambiente pré-crise, já com alguns indicadores antecedentes, como câmbio, a queda da bolsa. Uma das fragilidades do arcabouço fiscal é ter esse componente. Se invertesse e fizesse um ajuste de gastos, eu acho que teria um efeito virtuoso, muito forte. Na verdade, enquanto investidores, todos nós só ganhamos se o Brasil melhorar.

Você descreveu um cenário macro e um cenário local importantes para as alocações. Como está hoje posicionada a Occam?
Dados os desafios do Brasil e de uma perspectiva de mercado emergente que não está favorável pelo esse efeito do dólar forte, maior crescimento dos Estados Unidos comparado ao mundo, e de uma dinâmica de tecnologia mais forte, a gente tem investido mais de 50% dos nossos recursos nos Estados Unidos, principalmente neste momento em bolsa. Isso tem sido mais claro. A gente montou um time externo muito forte há mais de cinco anos. E a gente persegue ter algo próximo de 50% no exterior, dado que as oportunidades globais são ainda um leque maior do que no Brasil, mas recentemente temos conseguido efetivamente superar os 50%. No macro, temos posições com o mesmo viés, com apostas no dólar. Alguns países estão desacelerando mais forte, talvez tenham oportunidades com juros mais para baixo. No Brasil, em bolsa e mesmo em juros, na curva, tem muito ganho relativo que possa ser feito. Agora, infelizmente não está dando para fazer uma aposta direcional favorável no Brasil, porque a gente tem esse processo de deterioração macro. Temos posições relativas, na bolsa e nos juros. Estamos mais conservadores com o Brasil do que a média.

Na bolsa local, recursos geridos pela Occam estão mais vendidos? É esta a estratégia?
Eu diria que mais protegido, mais 100% protegido. Agora é claro que as nossas empresas em que a gente está comprado levam em conta o cenário de deterioração macro. Por exemplo, o que eu posso falar aqui para a Bolsa é que a gente acredita que um cenário de câmbio mais próximo de R$ 6 é o cenário que veio para ficar e talvez um dólar podendo andar mais, dado que existe um processo de deterioração macro. A gente acha que isso não está precificado nas empresas brasileiras. A gente acha que um cenário de juros acima de 15%, no caso mercado de futuros hoje projetam 16,5% e 17% até, não está totalmente precificado na bolsa. Esse cenário veio pouco para ficar e não está totalmente precificado ainda na bolsa.

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Você está descrevendo um cenário macro, com impacto na bolsa, e a análise micro como você fazem?
Usamos os dois, o macro e o micro nas análises. Estou falando que no macro tem uma deterioração e por isso não ficamos expostos, é um pouco mais negativo. Quando a gente vai para os setores, o que prevalece é uma tendência global. Quando você pega tecnologia, não tem muitas empresas do setor que dê para investir na bolsa brasileira, ou mesmo na América Latina. Hoje, a gente está investindo em algumas empresas de setor financeiro, seja banco digital, plataforma de investimento ou mesmo a tecnologia que os bancos detêm aqui no Brasil e que é bem avançada, mas é uma minoria. E tem as empresas brasileiras que ganham mercado e têm níveis de excelência global, com presença também em vários países do mundo. Essas empresas a gente também gosta, tem receitas em dólar, crescimento rápido. É muito importante que você tenha uma proteção, um retorno, um dividendo alto. Tem algumas empresas aqui com receitas em dólar e um dividendo bastante alto. São empresas com sede no Brasil, mas são globais.

A Occam tem fundos de crédito privado e vem crescendo bastante no segmento. Ainda tem oportunidades em 2025?
Quando olhamos para fora, a gente acredita que a bolsa gera uma oportunidade melhor do que o crédito. Quando você olha aqui para o Brasil, nós da Occam entendemos que é o inverso. O crédito tem sido mais atrativo do que a parte de bolsa e juros. Nosso diferencial na Occam, nos fundos de crédito privado, é gerar algumas operações de high yield, principalmente em FIDCs, em que conseguimos uma taxa high yield, mas muito ligada a empresas de high grade, ou seja, um risco menor em um retorno relativamente maior. Na parte de crédito, a gente reduziu a duration dos investimentos porque entendemos que o crédito pode sofrer nessa deterioração macro. Quem tem dívidas muito longas a taxa pode abrir mais, e estamos na parte mais curta e com menor exposição a crédito duplo A (AA), que poderia sofrer mais. Como a gente tem essa originação de operações de high yield, protegidas, que ficam menos à mercê do risco do mercado, e papéis de high grade, mais curtos, que a gente acha que também têm uma proteção maior, vai continuar gerando oportunidade.

E a demanda pelos produtos incentivados deve seguir forte neste cenário, mesmo com o risco subindo?
A gente tem visto uma demanda muito grande dos clientes para os incentivados, justamente em infraestrutura. A gente está abrindo agora um fundo de infraestrutura de debênture incentivada e temos registrado uma demanda bastante forte. Nós somos capazes de fazer a originação disso. Temos produtos também casados com o cenário macro, que a gente consegue proteger deste cenário e estão rendendo de forma relevante acima do CDI, de 140% de CDI, por exemplo. Os juros pode ir a, pelo menos, 15%, e se o produto além disso for isento é um ganho muito grande. Este fundo que estamos lançando já fez uma captação com um grande cliente e o fundo deve estar disponível para o mercado em breve. Ainda não podemos dar detalhes.

Como foi o ano de 2024 para a operação da Occam?
No ano passado, a casa ficou em torno do primeiro quartil, que é o que a gente procura, estar entre os 25% melhores em praticamente todos os produtos. No crédito privado, todos os nossos produtos foram premiados. Mesmo os de baixo risco, rendendo mais que produtos de liquidez. Estamos abrindo agora o nosso fundo D+1 voltado para o mercado, que foi premiado. E ele rendeu mais que 110% e não tivemos nenhum problema na crise de crédito, de Americanas. Estamos abrindo produtos de infra e com uma demanda muito grande. E a gente acredita que temos uma vantagem competitiva muito grande no crédito. Além de termos um time excepcional, que trabalhou junto por mais de 10 anos, já que os sócios são basicamente originais do BTG, e temos capacidade de originação. Nós também procuramos ter uma vantagem do ponto de vista do passivo. Fizemos uma parceria, que vai se tornar sociedade, com o Banco do Brasil (BB), o maior player de crédito do país. Temos, assim, vantagem competitiva do ponto de vista do ativo e do passivo, com todo tipo de produtos financeiros. A gente vai continuar crescendo, não tenho a menor dúvida, e mais do que o mercado. A gente tem essa parceria com o BB, cuja ideia é se converter numa sociedade e já está no processo.

Até aqui, como tem se dado a parceria no crédito entre a Occam e o BB?
A parceria envolve apenas o crédito e a ideia é que toda a nossa área tenha uma sociedade com o BB. A gestora de crédito da Occam, hoje parceira do banco, vai se tornar uma sociedade. Eu tenho um documento que não é público e não posso dar detalhes, mas é um modelo de sociedade. O BB é um investidor da parte de crédito, aproveita da nossa diversidade, diferencial complementar com estas operações high yield, produtos diferenciados, melhores, e, ao final do dia, o banco tem direito a uma parte do lucro da empresa. A parceria está rodando, ou seja, ele (BB) já se beneficia dos resultados da empresa. A nossa parte de crédito, já no primeiro ano, foi lucrativa. Agora a proposta é converter em numa sociedade que já está em processo e deve se concretizar em 2025.

A Occam tem fundos multimercados, categoria que vem sofrendo com resgates. Como o produto tem se comportado na casa?
A gente tem conseguido ir melhor do que a indústria. O nosso fundo macro ficou no quartil da indústria, acima do CDI. Os outros fundos macro, como também ações, ficaram próximos do CDI, ou seja, 95% ou 90%, mas claro que os clientes ainda estão um pouco mais cautelosos. Como estamos no primeiro quartil e vendo muita oportunidade relativa aqui e de investimento lá fora, já começou a melhora. No segundo semestre, a gente voltou a performar. Por exemplo, no Occam Absoluto, que é o nosso fundo mais conhecido de multimercado, rendemos acima de 150% do CDI. É o que historicamente a gente gera. Claro que tem uma aversão de risco dos clientes mas, no relativo, a gente tem tido uma demanda boa e eu tenho certeza que a gente volta a captar. No fundo de ações também fomos melhor do que o Ibovespa, que caiu. Todos os nossos fundos performam acima do benchmark. Os clientes institucionais, que têm uma disciplina de aproveitar esses momentos de um pouco mais de depressão no mercado e sempre alocar, já estão com a gente.

Falando apenas do mercado de ações, dá para visualizar uma melhora e em que tempo?
Eu sou muito animado com o mercado de ações. Acho que a gente vai demorar um pouco nesse ciclo para melhorar, mas se você olhar dois anos à frente, eu tenho convicção de que será um bom investimento. Performamos melhor que o mercado, mas claro que a gente não fica satisfeito no primeiro momento, porque é muito difícil acompanhar o CDI, mas eu tenho convicção que vamos continuar performando o benchmark e, como as oportunidades são boas, vai acabar também se concretizando no crescimento da parte de ações.

Qual o volume gerido de recursos pela Occam e como foi o crescimento no ano passado? Falta algo na prateleira de fundos da casa?
Nosso AUM está próximo de R$ 10 bilhões e a gente cresceu em 2024, sobre o ano anterior, acima de 20%. Sobre o que oferecemos, olhando em crédito, multimercado e ações, a gente acredita que tem uma carteira bem completa. É claro que sempre um fundo novo que pode chegar, por exemplo, a gente está fazendo um fundo, de special situations, que dá um yield maior na parte de crédito. Mas eu diria que na parte de ações de multimercado e crédito, a gente tem expertise, é capaz de fazer, globalmente ou no Brasil, qualquer produto. Agora existem outras áreas que a gente não investe ainda, mas que eu acho que no tempo certo a pode e deve fazer. As pessoas daqui lideraram áreas em outras casas, muitos saídos do BTG, que tinham áreas como Private Equity, fundos do agro e imobiliário. Então podemos fazer, mas a gente não gosta muito de produto da moda ou produto específico, mais cíclico, porque quando o cenário fica desfavorável, o produto roda muito mal. A nossa meta é continuar crescendo. Temos capacidade de dobrar o asset management. Eu acho que a gente vai crescer, neste momento, principalmente nos produtos de menor risco. A parte de crédito deve crescer mais porque as pessoas estão mais avessas a risco. Mas eu acho que as outras áreas também vão crescer bastante. O importante é você estar batendo o benchmark e estar entre os 25% do primeiro quartil.
