Snacks saudáveis e sorvete sem açúcar engordam portfólio da Moriah, que chega a 27 investidas

Parece Venture Capital pelo tamanho das investidas, mas não tem foco em empresas tecnológicas. Faz investimentos e participa da gestão das companhias, como um Private Equity, mas não tem como premissas do negócio prazos definidos para desinvestimento ou de portas de saídas mapeadas. Este modelo híbrido da Moriah Asset, criada em 2019 e que hoje tem 27 companhias no portfólio e perto de R$ 200 milhões investidos, é também um questionamento feito por seu criador, Fabiano Zettel. “Essa é uma pergunta que eu me faço”, afirma, sem rodeios, o CEO e figura central da casa, quando questionado sobre como definir a Moriah.
No mais, Zettel tem, de bate pronto, todo o modelo que sustenta a atuação da Moriah. Em entrevista à Capital Aberto, o executivo lembra que aportes na Oakberry, na Frutaria São Paulo e na Desinchá, foram feitos buscando um “selo de qualidade”, que abrisse portas, mas que o objetivo sempre foi companhias menores, que precisam de capital para crescer. Foco da Moriah são os mercados de wellness (saúde e bem-estar), sempre entrando como sócio, até 49% do capital, e participando da gestão. E “nada de entrar em empresa com problema”. Na entrevista, Zettel conta a história da Moriah Asset e dos planos de negócios, com prioridade no segmento de saudabilidade, e do ano de arrumação da casa (2025).
Acompanhe:

A Moriah tem um foco bem claro em segmentos de bem-estar e saúde. Por que a escolha?
Eu trabalhei no mercado financeiro, em várias reestruturações de empresa. E uma das coisas que eu observei ao longo dos anos é que as empresas que mais prosperam são aquelas em que o CEO, o proprietário do negócio, é a pessoa que efetivamente entende do negócio. Eu sou consumidor do mercado de saúde e bem-estar há mais de 30 anos. Quando eu comecei a praticar esporte, não existia o whey protein. Eu sou da época que você via o filme do Arnold Schwarzenegger e ele bebia ovo cru para treinar. As pessoas que hoje treinam estão vivendo a Disney. Tem brownie de proteína, brigadeiro de proteína, sorvete de proteína. Na minha época era ovo cru e não tinha muita opção.

E como foi a virada de um consumidor de produtos de saúde para fundador da Moriah?
Quando eu tive a oportunidade de sair do mercado financeiro para investir efetivamente em um negócio, tinha que ser em algo que eu entendo, como consumidor. Em paralelo, acompanhei o boom que o mercado de saudabilidade passou. A pandemia foi um acelerador, um agente catalisador. Não é mais uma questão de ter o corpo bonito. As pessoas identificaram a necessidade de melhorar a qualidade de vida, buscar longevidade, qualidade de vida. Juntei a minha paixão pessoal, a minha experiência profissional com a oportunidade de um mercado que vai continuar crescendo muito.

Qual o perfil das operações feitas até aqui pela Moriah? Onde buscar oportunidades?
Eu nunca investi em uma empresa com dificuldade. Eu não quero entrar para resolver problema, eu quero entrar para acelerar a crescimento. Eu prefiro entrar num negócio pequeno, que eu acredito, e ser um agente acelerador do crescimento. Não tenho nada vetado, mas até aqui não foi assim, mas pode ser que surja oportunidades (empresas com dificuldade). Eu gosto de fazer cash-in, cash-in para crescer. Eu nunca fiz cash-in para pagar a dívida. Foco é growth mesmo, crescimento.

Em relação ao tamanho da empresa, tem um perfil definido que interessa a vocês?
Eu tive que dividir a minha estratégia em dois momentos diferentes. Para eu colocar a Moriah na cabeça das pessoas, eu tive que fazer investimentos em empresas maiores. Você tem que ter um selo de qualidade. Foi assim que eu entrei na Oakberry, na Desinchá, na Frutaria São Paulo, que são empresas que, bem ou mal, dão um selo de qualidade. Mesmo sabendo que essas empresas de maior porte não são as empresas que vão me dar o retorno que eu efetivamente espero. Mas eu tinha que colocar a Moriah na prateleira para eu poder entrar no mercado que realmente me interessa, que são as pequenas e médias empresas. É onde eu enxergo a possibilidade de multiplicar o tamanho dessa empresa em 10, 20, 50 vezes. O meu target mesmo são as pequenas e médias.

Como é a concorrência neste mercado em que a Moriah atua, de saudabilidade?
O mercado de saudabilidade ainda é um mercado muito fechado. As empresas conversam entre si. A gente não tem concorrente. A gente tem muito poucas pessoas hoje que enxergaram o nicho da saudabilidade e buscam investir só neste mercado. Tem espaço para todo mundo. Cabem mais duas, dez Moriahs no Brasil. Porque o mercado ainda tem um espaço gigantesco para crescer. É bom para todos que sujam outras Moriahs no Brasil. Cria uma competição saudável.

Qual o racional do negócio, em termos de participação e de investimento?
Não é só capital. O pessoal gosta de falar de smart money, mas eu nem falo que é smart money não. Eu não compro controle. É uma filosofia minha. Tenho na minha cabeça que quem desenvolveu o negócio, que sabe fazer, tem que ser mantido no negócio e com apetite, com energia. Se eu comprar 90% da empresa do sujeito e deixar ele com 10%, em um determinado momento ele vai pensar que está trabalhando demais para ganhar muito pouco. Mas desde o dia primeiro em que entro na empresa deixo claro, eu não sou banco e eu não empresto dinheiro. Eu viro sócio, quero participar. Quero ver como é que está a mídia, o marketing, a contabilidade, se o financeiro é organizado. Tudo. O máximo que eu tenho de percentual de uma empresa hoje é 49%. E a menor participação que eu tenho é 12%, na Haoma Chocolates.

A Moriah tem uma estratégia de saída do investimento, um prazo. Qual o racional para rentabilizar o aporte?
Primeiro, eu não entro para sair. Não quer dizer que eu não vá sair, mas não entro olhando a porta de saída. Existe um caso específico, que não vou te falar qual, em que no dia que entrei no capital, os donos falaram a empresa vale 80 e que quanto batesse em 300 vão vender. Eu entrei consciente que nós vamos fazer um trabalho, vamos atingir uma linha de valuation para vender. Ainda não saímos, está na casa dos 150, mas quando bater a meta vamos cumprir. Em condições normais, eu entro para ver o que vai acontecer. Por outro lado, tenho uma filosofia de que não estou aqui para atrapalhar o negócio de ninguém. Mesmo que eu ache que dava para ficar mais tempo com a empresa, se o dono, o fundador, ao atingir determinado valuation decidir que é a hora de vender, eu vendo. Agora, como a Moriah é muito centrada em mim, na minha pessoa, tem negócios que se tiver que vender vai doer o coração, porque eu me apaixono pelas coisas. Mas se tiver que vender, eu vendo.

Quanto vocês já investiram de capital e em quantas empresas a Moriah tem participação?
Hoje eu tenho 27 marcas, empresas investidas. Até o final do ano a gente deve chegar perto ou passar um pouquinho dos R$ 200 milhões. Temos acertado demais, mas erro também. Já tiveram casos, não vou citar nome para não ser indelicado, mas já tivemos 30 negócios e hoje são 27. Ou seja, em três eu saí. Não foi prejuízo, mas também não foi lucro. Eu optei, diante de circunstâncias específicas, por não ficar. Em dois casos eu vendi a participação para os sócios e em um terceiro caso eu desfiz o acordo. Valia a pena desfazer. Mas em nenhum caso eu errei no produto. Quando a gente trabalha igual eu trabalho, entra na empresa, na realidade, é igual namoro. E tem gente que você namora, é uma delícia, mas quando casa você descobre que não é aquela maravilha. Às vezes eu acredito numa velocidade X, a pessoa quer dar uma velocidade quatro vezes maior. É uma questão de filosofia e nos três casos foi o que ocorreu. Eu sou um agressivo conservador. Eu tenho alguns parâmetros na minha cabeça, já estabelecidos, e deles eu não abro mão.

Você pode me dar um exemplo destes parâmetros que são centrais no seu modo de fazer negócio?
Eu não acho viável franquear um negócio com menos de dois anos de vida. Eu acho que uma empresa tem que ter dois ciclos completos antes de eu poder desenhar um modelo de franquia. O sorvete é um exemplo que eu gosto de dar. Não adianta nada você lançar uma marca de sorvete em janeiro, que está um calor desgraçado no Brasil, vende bem em janeiro, fevereiro e março, e decide franquear. Vende dez franquias, entra junho, julho, agosto, uma friaca danada e o consumo cai. O franqueado vai se decepcionar. Nós somos sócios de uma loja de sorvete saudável, que se chama Freeze, e vamos abrir a segunda loja. Tivemos esta conversa com a sócia, que já tem 12 pedidos de franquia, de gente interessada. Eu disse a ela que vamos montar um formulário para que cada uma dessas pessoas preencha, para entender o perfil de cada uma, para ter os dados e mandarmos uma carta respondendo que ainda não temos um modelo de franquia, mas que tão logo ele exista, vamos entrar em contato. Às vezes o investidor não tem essa paciência, mas é importante.

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Como está a estratégia de crescimento definida para a Freeze?
A Freeze tinha uma fábrica de sorvete, que atende iFood, vários restaurantes de São Paulo. Ela não vendia no varejo. Tinha uma portinha de metal que era por onde os motoqueiros pegavam os pedidos. Ficava em Moema. As pessoas descobriram e nos finais de semana virou tipo um point. Tinha 300 pessoas na frente da portinha dos motoqueiros, tomando sorvete. Foi quando a proprietária me procurou e decidi investir. Primeiro abrimos uma flagship, uma loja linda, em um ponto super legal no Itaim. Inauguramos a loja e ela é um sucesso. Agora queremos abrir uma segunda loja própria. Estamos procurando um ponto nos Jardins. Mas franquia antes de dois anos não abro.

Qual é a sua ideia de um ritmo saudável de crescimento para as companhias investidas pela Moriah?
A gente tem casos absurdos na Moriah. Tem empresas crescendo 100%, 130% ao ano. Mas não é algo esperado. O que eu entendo ser um ritmo saudável e longevo é por volta de 35% ao ano. Agora número é muito transferido. Porque eu tenho uma lojinha pequenininha, aí eu abro uma flagship, abro uma loja em Jardins, aí eu viro para você e falo, poxa, no primeiro ano meu negócio cresceu 400%. Mas isso não quer dizer que esse é um ritmo de crescimento sustentável. Às vezes a pessoa se empolga com o primeiro ano, com o segundo ano e acha que essa vai ser a realidade da vida dela. E não é assim. Quem dera se fosse.

Além do capital para entrar no negócio, a Moriah segue investindo para sustentar o crescimento da investida?
Depende. Em condições normais é o próprio capital que eu já aloquei. Existem casos em que se houver necessidade de capital, eu coloco mais e às vezes ou compro uma participação maior naquela loja específica ou compro um pedacinho de equity no negócio como um todo. Vai tudo sendo negociado com o investido. Eu não quero criar indisposição com o investido. Muito pelo contrário. A gente tem que caminhar junto.

Quando você começou a Moriah, qual que era a expectativa de retorno? Você atingiu o objetivo?
Eu sou, ainda, muito garantido pelos grandes investimentos que eu fiz. Você pega uma empresa igual a Oakberry, que já vem com um ritmo de crescimento estabelecido. Eu já ganhei 50% a mais do que eu botei de investimento na Oakberry. Você pega a Desinchá, que também já vinha de um ritmo muito grande de crescimento e quando eu entrei era uma empresa de R$ 50 milhões. Hoje é uma empresa de R$ 120 milhões. Nas menores, a gente tem surpresas agradáveis e desagradáveis. Tem desde aquela que você imaginava que iria crescer 30% ao ano, mas cresceu 100%. Tem uma que você imaginava que iria crescer 30% ao ano e cresceu 10%. Mas juntando tudo numa balança, graças a Deus, nós estamos no lucro.

Você cita casos de muito sucesso e outros de um avanço mais modesto. O que é central no desempenho das companhias?
São duas coisas: marketing e produto. Uma das empresas que a gente teve uma surpresa gigantesca era de snacks saudáveis que vendia snack de frutas e muito bem. Em um determinado momento, o dono resolveu desenvolver um salgadinho que parecia um Elma Chips sem glúten, sem gordura, sem sódio e o produto virou um case. Hoje é o carro-chefe da empresa. Tem a questão do produto, sim, e tem a questão de marketing. A gente viveu, falando por mim, em uma época em que o produto que vendia era o produto que passava no intervalo do Jornal Nacional. Vi nascerem os mega influenciadores vendendo tudo e tomando o espaço que era da TV, do rádio, de outras formas de mídia. E hoje a gente já vê outro movimento. Você já não tem mais um marketing generalista ou a celebridade que vende de tudo. Hoje está muito nichado. Dependendo do seu produto, às vezes você tem um influenciador que tem 500 mil seguidores e ele vende 10 vezes mais do que um que tem 5 milhões. Porque ele comunica exatamente com o consumidor da sua marca. As estratégias de marketing estão tendo que ser muito mais bem desenvolvidas, as pessoas estão tendo que ser muito mais inteligentes, tendo que mapear muito mais o mercado porque hoje em dia não tem mais quem fala com todo mundo.

A estratégia de marketing para as investidas é feita internamente, pela Moriah? Qual a estrutura da casa?
Eu tenho dentro da Moriah áreas bem estruturadas. Eu tenho nove pessoas de marketing. Nas empresas muito grandes acaba que a minha equipe se envolve menos. Em uma empresa igual a Oakberry, que está no Super Bowl, que está na Fórmula 1, eles precisam muito menos da minha ajuda do que as empresas menores. Mas tem empresas que chegam na Moriah e que não têm nada de marketing. Neste caso, além do aporte financeiro, vem esse aporte de mão de obra, porque a gente tem um jurídico bem estruturado, a contabilidade, controladoria, financeiro, marketing, comunicação, rede social, para poder ajudar essas empresas.

E olhando para frente, onde estão as principais oportunidades, quais os planos?
Eu não estou criticando, mas a gente tem notado uma mudança. As pessoas estão cada dia mais abandonando o que é fitness e caminhando para o que é saúde. Hoje, o sujeito não treina para ficar com a barriga quadradinha. Existem, claro, os saradões. Mas se você pegar o oceano de pessoas que hoje praticam atividade física, querem envelhecer com saúde, dar conta das tarefas do dia a dia, não ter dor nas costas, no joelho, ou baixar colesterol. Estou muito mais voltado para questões de saudabilidade do que para questões de performance. Eu já estou buscando algo no universo das águas proteinadas, dos suplementos para a saúde mitocondrial. Existe um boom nos Estados Unidos, que vai chegar no Brasil, da suplementação para a saúde cerebral, para a saúde do raciocínio, do sono, clareza de pensamento. Hoje, existem vários nootrópicos que estão sendo usados para a melhora de raciocínio, da performance mental, a qualidade do sono.

Academias, estas mais temáticas, interessam à Moriah?
Eu sou sócio de uma academia que só tem uma unidade, que é a Les Cinq, em São Paulo, que é uma academia premium, que foi um dos primeiros negócios que eu entrei. Tem alguns negócios de academia que eu estou estudando, projetos que estão em cima da mesa, que eu estou analisando. Muito voltado para isso, as específicas de yoga, de pilates, aqueles treinos que são funcionais, que não são aqueles treinos voltados exclusivamente para beleza estética.

Como foi o ano de 2024 para a Moriah?
Esse ano foi o que a gente mais cresceu. Entraram 20 projetos na casa. Eu fechei os negócios com as grandonas, para chamar atenção, e agora poder olhar para as menores. Em 2025, já conversei com a minha equipe e vamos entrar numa fase de organização da casa. Se aparecer um negócio muito bom podemos entrar. Mas eu não estou à procura. A ideia para 2025 não é aquisição, mas se pintar oportunidade fazemos.

Como você define a Moriah? Parece um Private Equity, mas tem cara de Venture Capital. Qual a sua definição?
Essa é uma pergunta que eu me faço. Porque parece mesmo um Venture Capital, mas eu não sou focado em empresa de tecnologia. A Moriah é muito centrada em mim. São escolhas muito pessoais, são análises muito pessoais. Preciso conhecer muito bem o investidor. Eu faço uma análise muito pessoal da figura do sócio da empresa, do fundador da empresa. Eu tenho que entender onde é que ele quer chegar, qual é a visão dele de futuro, se ele é um cara de chão de fábrica mesmo, ou se ele quer ser chefe, se ele quer ter um monte de funcionário para poder ter uma história de sucesso. Eu olho muito a pessoa. Já existiram casos, na Moriah, de ser apresentado a um negócio com números extraordinários, maravilhosos, mas eu olho e falo não dá. Eu não vou conseguir ser sócio daquele cara, não vai dar certo.

Você está em Miami, de férias e fazendo pesquisa de campo, mas tem planos de investir fora do Brasil?
A gente tem empresas que vendem aqui, a Desinchá. Mas do Brasil que vende nos Estados Unidos. Temos a Oakberry, que está em 56 países. E temos a Naturanic, que é uma empresa 100% brasileira, que só vende nos Estados Unidos. É o segundo snack saudável mais vendido na categoria da Amazon. Venho para cá de olho em tendências de prateleiras, rótulo dos produtos, cada vez mais clean, embalagens atraentes. Eu gosto muito de ficar observando o comportamento do consumo.
